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Tal como defende Bufford Youthward num dos artigos que periodicamente publica no site Art Crimes, www.graffiti.org, ´ é um erro assumir que o graffiti é incapaz de se adaptar´ e de acompanhar a evolução da (so)ci(e)dade. Do graffiti tal como começou a ganhar forma nas antigas urbes Romanas (há quem defenda as raízes desta prática no Egipto antigo), pouco é identificável no graffiti contemporâneo.
Os primeiros grandes passos evolutivos em direcção ao graffiti como o concebemos hoje tomaram lugar durante a década de 70. O número de praticantes bem como a sua dedicação ao acto de pintar graffiti disparou sem que nada o fizesse prever – afinal o tempo dos muralistas mexicanos já era. Neles se traçaram as características gerais que ainda hoje definem o graffiti: a procura de, num espaço alheio e, portanto, de forma marginal, intervir graficamente por meio de palavras.“Os pioneiros dos comboios como Phase 2 terão preferido referir-se ao seu ofício como “writing” e veementemente rejeitado a palavra “graffiti”. (...) “Writing” originalmente significou estilizar as letras do seu nome” (...) “Chamar-lhe [arte do aerosol] é também restritivo, pela simples razão que nem todo (o graffiti) é feito com tinta de spray, especialmente nos dias de hoje.”
Transparece nesta primeira geração de writers uma vontade de distinguir a sua prática do simples vandalismo pondo em evidência o impulso de carácter criativo que os motivou: O acto de estilizar difere do de decorar; estilo implica a proposição de uma linguagem visual (baseada em signos) que se adapta e põe em prática uma produção de sentido em torno da problematização de um qualquer assunto. Ao estilizar as letras do seu nome, o writer atribui ao acto de pintar um discurso artístico além do simples significado verbal do seu nome. A utilização repetitiva do seu nome pode ser um simples pretexto para a procura do estilo ou pode ser uma forma de auto-afirmação.
O lado da auto-afirmação no acto de pintar graffiti fez sentido em finais de 1970, início de 1980 para muitos jovens pouco preocupados com o civismo nos seus actos: mapear o trajecto do seu corpo pela cidade por intermédio de tags (assinaturas estilizadas de um pseudónimo) em qualquer superfície que atraia sobre o seu nome a atenção das grandes massas. A situação de crise económica e sobretudo social, com grandes fluxos de imigração vindos da Europa, o interesse imediato dos media e a tendência para a imitação nos jovens está portanto na base do crescimento exponencial do graffiti.
Se o lugar da arte na contemporaneidade se encontra algures no estudo e desenvolvimento do quadro mental do Ser Humano, então a questão da legalidade/ilegalidade no graffiti é, por si só, o contributo primeiro e mais importante deste movimento no âmbito da teoria de arte contemporânea. Para se compreender verdadeiramente o graffiti é necessário “o que Susan Farrell chama “uma mudança fundamental para uma perspectiva não sancionada””. A legalidade ou ilegalidade do acto de pintar num determinado espaço por si só perde o sentido prático. A abordagem não deve ser a de o que é punível ou não por lei, mas de o que é ou não socialmente permissível. No seu texto, Sonik contrapõe o trabalho dos writers, que “têm vindo a fazer o seu trabalho, gratuitamente, sobre [espaços subaproveitados, ofensivos], da nossa paisagem urbana desde há muito”, aos conteúdos doentios veiculados pela publicidade. Sonik considera o vandalismo (destruição de propriedade alheia sem qualquer intuito de reconstrução) “em parte como resposta a essas doenças sociais. Os tags não tentam ser a cura, mas uma medida precisa da raiva que estas doenças sociais elicitam”
Os motivos desta desigualdade de direitos é estudada por Daniel J. D'Amico em “Thou Shall Not Paint: A Libertarian Understanding of the Problems Associated with Graffiti on Public v. Private Property” e por Ilse Scheppers em “Graffiti and Urban Space”.
O graffiti representa o incontrolável: os locais onde o writer pinta não podem ser previstos ou definidos. Ele é a prova da ineficácia dos sistemas de segurança. Surge regra geral de noite, nas mesmas horas e locais de ocorrência de outro tipo de crimes. O writer actua como um Okupa que revitaliza superfícies em edifícios abandonados e/ou deteriorados, considerados como o lugar da marginalidade, e por isso é ele mesmo considerado marginal. O writer despreza a autoridade da lei, desrespeita as noções de espaço público e privado e põe em causa o uso convencional que o estado dita à propriedade pública, paga com os fundos dos impostos pagos por todos incluindo o writer. O graffiti ameaça o mundo capitalizado ao competir pelo espaço com a publicidade, para com a qual a lei é permissiva por ser lucrativa. Em alternativa à imagem plastificada de objectos de desejo inacessíveis (o móbil do consumismo), o graffiti surge como uma imagem gratuita, desprendida dos circuitos tradicionais da arte, imperfeita; uma arte em constante mutação expressa em paredes dinâmicas, que convidam à participação activa rectificadora do observador. O tipo de linguagem e a estética que desenvolveu são estranhas para a maioria das pessoas, incapazes de distinguir esta prática de um qualquer acto de vandalismo inconsciente. Para aumentar o clima de tensão entre o writer e a sociedade, a história comprovou a ineficácia e o efeito perverso das medidas anti-graffiti.
Contrariando o estereótipo que se gerou, os estudos antropológicos desenvolvidos em torno desta sub-cultura revelam uma comunidade (cada vez mais) heterogénea. O nível educacional médio é equivalente ao da população em geral. A área de formação predominante entre writers é a das Artes. Quase todos eles se identificam como artistas, enquanto writers, o que, por si só, desde Duchamp, seria suficiente para validar o seu produto enquanto arte, seja ela boa ou má.
“A localização é uma grande parte do graffiti. (...) Na melhor
das hipóteses, o graffiti e a arte de rua vêm a ti”.
A partir do parágrafo 17 e até ao parágrafo 26, Sonik propõe sete critérios para a análise e avaliação qualitativa do graffiti segundo a sua localização:
- A possibilidade ou impossibilidade, facilidade ou dificuldade de pintar um determinado espaço, numa relação directa entre “risco e recompensa”.
- A audiência. A escolha do público alvo é determinante no tipo de graffiti que o writer leva a cabo. Optar por pintar um comboio, por exemplo, implica um graffiti de execução rápida e longevidade curta, para ser visto rapidamente ao vivo por uma grande massa. Em oposição a isto, um graffiti executado para ser visto de forma mais íntima por apenas um grupo restrito, será necessariamente diferente: o writer escolherá provavelmente um local pouco exposto, onde pode dedicar à execução da pintura bastante tempo e onde esta permanecerá provavelmente por largos anos.
- Superfície: os “writers têm oportunidade de pintar excelentes superfícies: cimento, aço, tijolo, metal corroído, e por aí fora (...) O bom graffiti e arte de rua tiram sempre partido de uma superfície com um carácter próprio”. Esta é também, com frequência, uma preocupação da pintura convencional, com que o graffiti anda lado a lado em muitos aspectos. Ao empregar o conceito “arte de rua” Sonik está-se a referir a uma nova corrente surgida a partir do seio do próprio graffiti e que implica, essencialmente, uma tomada de consciência dos variadissimos media com que o writer pode intervir na rua, para além do graffiti convencional. Ao assumir que toda a boa Arte de Rua tira partido da superfície, ele está a restringir os media da mesma a intervenções bidimensionais, negligenciando a escultura, a performance, etc...
- “Colocação e incorporação do trabalho no espaço”. O graffiti, tal como qualquer objecto de arte, dialoga com o espaço em que se insere. Intervém sobre ele mas é também determinado por ele. Ao fazê-lo, torna-se site-specific.
- Permanência. “naturalmente, os writers procuram fazer o seu trabalho durar tanto quanto possível”, mas, simultaneamente a existência efémera de alguns trabalhos é parte da beleza que nele existe.
- Originalidade ou história do espaço.
- As “intangibilidades sensoriais do local”. Sonik utiliza esta expressão para referir as características de um local que escapam ao registo fotográfico, como os odores, ou as pequenas histórias que o writer guarda na sua memória, relacionadas com o local.
Durante os anos 80 o graffiti voltou-se novamente para o “underground” de onde emergira. Os writers procuraram locais mais afastados do público onde pudessem desenvolver os seus estudos em torno de questões de estilo sem se preocuparem com a repressão da autoridade. Isto trouxe alterações na forma como os writers percepcionam e interagem com o espaço, ao tomarem consciência de um leque muito mais abrangente de espaços possíveis para a existência do graffiti.
A fotografia como registo da pintura e como suporte último para a visualização dos graffiti, levou muitos writers a prescindir da visibilidade em prol da qualidade.
Com a década de 90 o graffiti retorna à superfície e sofre novo aumento na sua expansão bem como modificações estruturais ainda hoje alvo de divergências de opinião e discussões: a massificação da Internet e a globalização dos sistemas de informação é acompanhada de perto pelo mundo do Graffiti. Surgem sites onde os writers podem expor os seus trabalhos sem que estes tenham que ser vistos na rua. A fotografia torna-se definitivamente mais importante que o trabalho em si. Praticamente desaparecem os regionalismos estilísticos, passando a existir uma única miscelânea global de estilos híbridos. A Internet torna-se o mais importante meio de comunicação entre writers, que através dela discutem os seus trabalhos, planeiam pinturas conjuntas, trocam imagens, sociabilizam... até mesmo o conhecimento que até aqui era passado de veteranos para novatos na primeira pessoa ou através das paredes, passa a ser mediado em grande parte pela Internet.
Em 2005 o Graffiti parece-me a mim ter já durado mais que alguns movimentos artísticos do séc. XX e gozar neste momento de uma relação relativamente saudável com as autoridades em muitos pontos do globo. Os grandes eventos internacionais tornam-se cada vez mais importantes para os writers como forma de mostrar o seu trabalho, sociabilizar e troca de conhecimento. Será impressão minha ou estaremos a viver uma evolução em muito parecida com o que sucedeu no Maneirismo há 500 anos atrás?
CRAFT
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