O espaço urbano acolhe as diversas manifestações visuais que, sob diferentes denominações, se podem incluir nesta forma de expressão cultural contemporânea. A parede é o suporte mais vulgar, todavia, podemos encontrar graffiti nos espaços e suportes mais inesperados. Não é difícil encontrarmos sinais de trânsito, portas de residências, autocarros, carruagens de metro e comboio, entre outros tantos suportes, que albergam códigos verbais e pictóricos desconhecidos da maioria dos transeuntes. A originalidade e espontaneidade do acto é uma evidência.
Está difundida a ideia de que o graffiti é essencialmente territorial. Esta ideia não deixa de ser verdadeira, por duas razões. Em primeiro lugar, porque sem território físico não há graffiti. Este vive na cidade e necessita de suportes materiais para residir. Em segundo lugar, porque os writers e crews se apropriam frequentemente de territórios geográficos, por onde espalham o seu nome e a sua arte. É comum a ideia de que determinados writers e crews, ocupam preferencialmente uma dada área geográfica, eleita como a sua zona de actuação preferencial, mas não exclusiva. Geralmente, esta associação decorre da geografia por onde se movem os protagonistas desta arte de rua, nomeadamente do espaço onde residem e convivem.
Existem determinadas zonas urbanas que adquiriram especial relevo no mundo do graffiti, devido à valorização simbólica e artística das expressões visuais aí presentes. Alguns espaços assumem uma dimensão quase sagrada, tal é a sua importância histórica, simbólica e cultural. O consagrado muro das Amoreiras em Lisboa é, talvez, o melhor exemplo, que podemos encontrar actualmente, desta situação.
Como sabemos, o graffiti também comporta diferentes expressões. Do simples tag, ao throw up, passando pelo hall of fame, entre outras manifestações, o graffiti é dinâmico e mutável, aceita a fusão e a novidade. Nem todas as expressões possuem idêntico valor, pois este depende de uma série de circunstâncias que estão associadas à competência técnica do writer, ao local que acolhe o graffiti ou à complexidade da forma e conteúdo do mesmo. Um graffiti não tem um valor predeterminado, vale aquilo que lhe é atribuído pela comunidade writer, em função do contexto em que foi produzido e de uma série de circunstâncias que nos indicam o risco envolvido, a visibilidade do spot, a técnica usada ou a complexidade da execução.
A galeria apresentada não pretende, como é óbvio, esgotar a totalidade dos graffitis existentes na área da Grande Lisboa, nem sequer apresentar os mais marcantes. É, antes de mais, uma mostra baseada na diversidade de linguagens e propostas, de locais e suportes, de writers e crews, que não procura julgar ou avaliar em função de critérios de ordem estética. Assim, tanto estão presentes tag’s como throw up’s, hall of fame’s de writers e crews conhecidas, stencil e stickers, em áreas geográficas tão diversas como Cacilhas e Miratejo em Almada, o Bairro Alto ou as Amoreiras em Lisboa, Ramada em Odivelas, ou Amora no Seixal.
Ricardo Campos
Sociólogo
|